Cirilo Cabos  Devialet  CD Shop    
        


Ver RSS

Música "à Brasileira"

Texto publicado originalmente na minha Timeline do facebook em Janeiro de 2012

Avaliação: 2 votos, média de 3,00.
Para quem é interessado realmente em música brasileira (e não apenas no que mídia e o "mainstream" definem como tal) o momento que começou a se construir com a explosão das redes sociais, da popularização dos arquivos digitais e novas formas de produção e comercialização é histórico e talvez único na evolução musical do país (e no mundo).

Não sou "Polyanna", no entanto, para não reconhecer que os artistas, que vem de um formato "analógico" em suas carreiras, são os que mais sofrem hoje em dia. Todo um heroísmo, paixão, cuidado e senso de dever com a cultura estão desaparecendo e são pouquíssimos nichos que mantém esta postura. Alguns espaços culturais e algumas gravadoras independentes e só. É triste dizer mas muita gente de talento, a continuar assim, já está com a carreira encerrada.

Mas de outro lado, um "tsunami subterrâneo" aconteceu. Fora dos esquemas mais tradicionais, sem paciência com o sucesso imediato proposto por gravadoras, pelos produtores e empresários anacrônicos, uma rede de contatos , virtuais ou não, se estabeleceu. Festivais, novas formas de produção e de viabilização de projetos floresceu e permitiu uma "primavera punk" na música brasileira.

Se não formos preguiçosos, rabugentos e carpideiros, o Google ajuda a entender: em 2011, como exemplo, foram quase 500 trabalhos novos lançados em cds ou em mp3 para compra ou download gratuito. O que muitos poderão contra-argumentar: quantidade não é qualidade. Mas se tratando de expressão cultural é melhor que se tenha o exagero do que a escassez pois, nesse aluvião, com certeza encontraremos preciosidades.

Artistas de todos os cantos do país estão construindo carreiras, atingindo públicos e lançando álbuns com popularidade sempre crescente. Shows ( que se tornaram a principal fonte de sobrevivência) estão lotados para os que levaram a letra da canção dos "Nos Bailes da Vida " novamente para a prática.

Exemplos? Marcelo Jeneci, Tulipa Ruiz, Vanguart, Mombojó, Móveis Coloniais de Acaju, Luisa Maita, Namorada Belga e a A Banda Mais Bonita da Cidade dentre muito outros. Muitos mesmo. ( e honra ao mérito ao Cidadão Instigado meio precursor de tudo isso)

Um cenário que não se via desde o fim da ditadura quando a MPB de qualidade era a música popular brasileira de verdade.

Claro que na superfície do senso-comum, das rádios e TVs e das casas de shows isso não faz qualquer sentido. Continuamos a ouvir e reclamar dos axés, do pagode, dos créus, dos funks, dos sertanejos, do tecnobrega e do algoz da vez, o fenômeno Teló. Mas isso, para quem acompanha música, nunca foi diferente. Na mídia de massa o que quase sempre imperou foi o apelo fácil, a melodia programada para agradar e as fórmulas prontas de ganhar dinheiro a qualquer custo.

Sempre o que foi bom nadou contra essa maré. Só que, no passado, as atitudes guerrilheiras eram isoladas. Pouco ou nada se sabia o que se fazia de bom em Porto Alegre, em Recife ou no interior de MG.

A internet mudou esse panorama por completo. Para pior e para melhor. Hoje qualquer coisa, boa, ruim ou efêmera, está no ar. Pode se tornar viral e ganhar a atenção de muitos ou pode ser um nada. Mas também, esse mesmo canal abriu a chance para que muitos não se interessassem mais pelos esquemas industriais de cultura. A ideia do "vamos fazer nós mesmos" não foi um uma ato de rebeldia. Foi uma escolha.

É o paraíso? óbvio que não. Ainda convivemos com o descaso de políticas públicas, de impedimentos para que as concessões de rádiodifusão abram espaços legítimos para essas manifestações (sim, a poderosa rede Globo deveria ser obrigada, mesmo a contragosto, a exibir um programa para divulgação desses artistas). Para que o público mais conservador, aquele preso ao passado de nomes consagrados, ou aquele só bombardeado pelo sucesso imposto, tivessem a chance de conhecer esta nova realidade.

Mas é questão de tempo e me parece irreversível que isso ocorra. Nunca o conceito de "Aldeia Global", forjado nos anos 60, fez tanto sentido como nos dias atuais.

Não peço a ninguém (nem a mim mesmo) que se desapegue dos seus ídolos. Mas toda vez que você praguejar contra a o lixo musical que nos rodeia ou citar pela enésima vez o quão maravilhoso e saudoso é o trabalho de Elis Regina, da Maria Betânia ou do Ney Matogrosso, pense.

E o mais importante:

Não seja uma Carolina Buarqueana que, mesmo na janela, com um mar de possibilidades à sua frente, nada viu.

Na imagem, Mateus Sartori, um das novas vozes mais belas da nova MPB lançando "Fransciscos" seu álbum dedicado aos Chicos da nossa música.





Atualizado 24-01-2012 em 01:11 por Texturas

Tags: cantor, mpb Adicionar / Editar Tags
Categorias
Sem categoria

Comentários

  1. Avatar do(a) Niquel náusea
    Sim,graças ao bom Deus...exste uma geração que não se inclina a BAAL!!!
  2. Avatar do(a) Russo
    Graande Luizão,

    Mais uma vez nos trazendo informações preciosas.
    Difícil garimpar nesse mar de opções...

    Mas, nem tudo está perdido.
    Ainda bem que temos pessoas como você que com critério e bom gosto nos traz sempre uma agradável surpresa.

    Poste sempre. Estamos aqui lendo na espectativa.

    Muito obrigado.
  3. Avatar do(a) zairon
    Muito legal o texto, parabéns.

    E sempre comento isso quando tenho oportunidade. A galera reclama muito que não existe filme como antigamente, música, etc...
  4. Avatar do(a) picolileao
    Simplismente maravilhoso.Obrigado
  5. Avatar do(a) Wram
    Olá pessoal.. Se me permitem uma opinião, eu acho que houve, pela primeira vez no mundo, graças à tecnologia, uma confluência de vários fenômenos ao mesmo tempo: o avanço das redes sociais, a falência do sistema de gravadoras, o domínio da grande mídia de massa, etc., mas o que realmente chama a minha atenção é o fato de que a geração atual de músicos não parece conhecer composição e teoria musical tão bem como ocorria nas gerações anteriores de veteranos. Penso que tenha decaído a formação musical dos artistas em geral e que o padrão a ser atingido profissionalmente tenha baixado também. Daí vermos os músicos atuais "reinventando a roda" e achando que realizam coisas "inéditas", quando na verdade estão repetindo, e com diluição, o que os músicos de gerações anteriores faziam muito bem e melhor. Antigamente, os músicos estudavam durante anos a fio, eram "enciclopédias ambulantes de música" e dominavam completamente suas influências e as correntes que os haviam precedido, o que não ocorre atualmente.